ARTIGO — Tudo Começa no Ser Humano
- 23 de fev.
- 6 min de leitura
Por Leonardo Lima
Gostaria de propor uma reflexão sobre nossa responsabilidade individual na perda dos alimentos. Considerando dois extremos, ela vai desde a ignorância verdadeira sobre o tema até a mais profunda arrogância de que tudo nos pertence e, portanto, podemos jogar comida fora como bem entendemos.
O tema da perda de alimentos está presente em minha vida há vários anos e se intensificou por observar a crueldade que fazemos conosco mesmos, quando destinamos alimentos próprios ao consumo ao lixo.
Com uma longa cadeia de perdas — desde sua origem no campo até o consumo — o alimento passa por várias mãos. Mas o ponto que mais me indignou foi perceber que pessoas que não têm condições de se alimentar com o que descartam, por força do trabalho, são orientadas a jogar fora alimentos próprios para o consumo. Elas destroem com as próprias mãos alimentos bons que jamais poderão provar. Isso é desumano.
Não são máquinas que jogam fora o alimento prestes a vencer, que tem um pequeno defeito estético ou que não foi vendido por falta de demanda. São seres humanos orientados a descartar o fruto de um trabalho e de inúmeros recursos usados para obtê-lo.
Por esta razão, este artigo trata do ser humano. Não é o alimento que se perde: somos nós que o deixamos perder. E, apesar da tecnologia e da era da inteligência artificial, o problema continua sendo humano.
Depois de décadas de inovações logísticas, de armazenamento, de refrigeração e de tecnologias de cadeia de abastecimento, os últimos dados da FAO revelam que 13,3% dos alimentos produzidos globalmente ainda são perdidos entre a colheita e o varejo — praticamente o mesmo nível observado em 2015.
Esse patamar revela que a tecnologia, por si só, não foi suficiente para mover a agulha de forma expressiva. Estimativas mais amplas indicam que cerca de um terço dos alimentos produzidos para consumo humano acabam perdidos ou desperdiçados, o que mostra que a escala do problema continua massiva.
E mais: essa perda e desperdício respondem por 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, revelando que o problema não é apenas logístico ou econômico, mas também ambiental e moral.
Por essa razão, acredito que ainda não estamos apontando para a causa raiz: o comportamento humano.
Um dos aspectos que nos impede, como sociedade global, de reduzir a perda de alimentos é a sensação de posse — e, por consequência, a liberdade de definir o destino daquilo que temos.
Pode parecer estranho, mas se o alimento fosse considerado um serviço, teríamos o suficiente para nossa sobrevivência, sem excesso nem falta.
No passado, quando não havia unidade monetária, o escambo predominava. Não fazia sentido produzir em excesso, pois o valor se perdia com a deterioração. O equilíbrio entre oferta e procura se ajustava naturalmente.
Com o tempo, o alimento deixou de ser apenas fonte de vida e passou a representar prazer, status e poder. A possibilidade de comprar itens raros e inacessíveis a muitos trouxe ao ego uma sensação de prestígio e diferenciação. A abundância virou símbolo de status em uma sociedade que valoriza o egocentrismo, e a banalização da perda tornou-se natural. Mas não faz tanto tempo que deixar comida no prato era considerado pecado.
Nosso crescimento populacional e a distância entre produção e consumo agravaram essa desconexão. Como exigir que jovens que nunca viram uma vaca, mas bebem leite de uma caixa, valorizem o trabalho envolvido em sua produção?
Mesmo em culturas que respeitam mais o alimento, o desperdício existe — o que prova que ser humano, sistema e contexto importam. Na Índia, onde o alimento é sagrado, há menos desperdício, mas ele aumenta em festas e grandes eventos. No Japão, a tradição do mottainai e políticas públicas robustas reduzem perdas, embora ainda haja desafios. Já em sociedades de consumo rápido, típicas do Ocidente, abundância e desconexão cultural geram mais desperdício.
Creio que cultura e contexto são relevantes, mas não bastam. A verdadeira mudança virá da transformação humana — pela educação, pelo valor e pela consciência.
Vivemos na era do material, onde compramos o que queremos e acreditamos ser donos do que adquirimos. Nesse modelo prepotente, tudo nos pertence, tudo é substituível, tudo é descartável — inclusive os alimentos.
A falta de empatia pelo esforço envolvido na produção de um alimento o transformou em produto de conveniência. E o pior: desperdiçar virou símbolo de status.
Essa lógica perversa não se restringe às classes mais altas. O desperdício também ocorre entre os menos favorecidos, porque é um reflexo do nosso modelo mental. A desconexão com a natureza nos faz acreditar que somos donos do planeta, e não parte dele.
Usamos e abusamos dos recursos naturais sem cerimônia. A conta chega, e se manifesta nas mudanças climáticas.
Quem joga fora um grão de arroz rejeita o trabalho de centenas de mãos invisíveis e de inúmeros recursos naturais envolvidos.
Apesar de nos alimentarmos e descartarmos alimentos todos os dias, raramente nos percebemos parte do problema — ou da solução.

Acostumamo-nos a delegar responsabilidades, atribuindo a culpa a governos, indústrias e supermercados. É mais confortável terceirizar a culpa do que encarar a consciência.
No entanto, há exemplos inspiradores. No Japão, a filosofia do mottainai e o programa nacional de educação alimentar Shokuiku ensinam às crianças o valor do alimento. Nos países nórdicos, a noção de bem comum e a educação cívica sustentam políticas de redistribuição e consumo responsável. Na Europa, geladeiras comunitárias e plataformas de food sharing mostram cidadãos assumindo responsabilidades e compartilhando excedentes.
Essas iniciativas revelam que a mudança não vem apenas de leis ou tecnologias, mas de uma cultura de consciência e corresponsabilidade que começa no indivíduo e se expande para o coletivo.
O desperdício é o resultado da soma das pequenas ausências individuais de responsabilidade.
Fui educado em escolas públicas e, por isso, tenho retornado a elas para retribuir em forma de educação para a sustentabilidade.
Essa vivência tem reforçado minha crença no poder transformador da educação. Crianças de seis a doze anos, quando bem orientadas e inspiradas, mostram que é possível construir um novo olhar sobre o alimento.
Do ponto de vista da neurociência, hábitos sustentáveis ensinados desde cedo criam conexões neurais duradouras. A empatia se desenvolve quando as crianças compreendem o impacto de suas ações e convivem com exemplos positivos em casa e na escola.
A transformação verdadeira não nasce de campanhas pontuais, mas de processos educativos contínuos, que unem conhecimento, emoção e exemplo. Pensemos em escolas como laboratórios da consciência — e em crianças ensinando os pais.
Há anos concentramos esforços em métricas e tecnologias, esquecendo o essencial: o ser humano.
Desde o nascimento, somos condicionados a consumir — e a consumir em excesso. As políticas globais falham porque atacam os sintomas, não a causa: a falta de trabalho psicológico, cultural e ético sobre o comportamento humano.
Enquanto tratarmos o alimento como número e não como vida, nossas metas continuarão frias e inalcançáveis.
Não faltam avanços, mas a abordagem precisa mudar. A solução não está em números, mas em empatia e compaixão.
Movimentos como o Youth Towards Zero Food Waste e startups brasileiras como Connecting Food, Food To Save, Restin e Fruta Imperfeita mostram que a transformação é possível quando indivíduos assumem responsabilidade.
Instituições como o Instituto Akatu demonstram que educação e consciência caminham juntas: escolhas individuais conscientes geram impactos coletivos.
A mudança começa dentro de cada um.
A transformação não depende apenas do futuro: começa hoje, com líderes conscientes em todas as esferas.
Empresas podem redefinir metas ESG e cadeias de abastecimento. Governos podem fortalecer bancos de alimentos e integrar metas de redução de desperdício nas compras públicas. Educadores podem inspirar empatia e respeito pelo alimento. Comunicadores podem ressignificar o desperdício, tornando-o moralmente inaceitável.
Quando a consciência ocupa espaços de poder, ela transforma comportamentos e sistemas.
Enquanto a educação das crianças prepara o futuro, a consciência dos líderes pode mudar o presente.
O problema é humano, e a solução também. Enquanto não nos olharmos no espelho e decidirmos agir, os números — já vergonhosos — continuarão a envergonhar a humanidade.
A perda começa no nosso consentimento. A mudança começa com indignação e ação.
“Estamos jogando fora uma em cada três calorias produzidas no planeta. Se conseguíssemos eliminar o desperdício entre agora e 2050, precisaríamos produzir apenas metade do alimento novo que hoje projetamos.” — Jason Clay, WWF (2013)
Leonardo Lima é Conselheiro do Brasil Sem Desperdício.




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