ARTIGO — Transformar sistemas alimentares é diferencial para o Brasil
- thais1312
- 12 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 13 de jan.
Gustavo Porpino (*)
É impossível falar sobre clima, desigualdade, saúde pública ou competitividade econômica sem falar sobre comida − e, sobretudo, sobre o que jogamos no lixo. Precisamos, verdadeiramente, re ver nosso conceito sobre o que se convencionou chamar de “lixo”. Os resíduos sólidos gerados nas cidades devem ser insumos importantes para outros ciclos produtivos e os alimentos, cultivados, armazenados, transportados e comercializados de norte a sul do País, precisam ser valorizados para chegar com qualidade ao consumidor final. Ao cidadão, cabe adotar hábitos sustentáveis e cobrar dos demais atores do sistema alimentar práticas igualmente justas e ambientalmente corretas.
O Brasil gera, por ano, aproximadamente 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU), equivalente a mais de 221 mil toneladas de resíduos por dia ou cerca de 382 kg de RSU por habitante por ano, segundo a Abrema. Caso se considere que aproximadamente 45% de RSU é de material orgânico, teríamos quase 172 kg descartados por habitante por ano no Brasil. Este montante pode dar uma dimensão do quanto é imenso o volume de comida descartada no Brasil por razões que vão muito além do comportamento das pessoas.
A valorização da comida brasileira, rica em cultura e tradições alimentares, é um passo importante para avançarmos em sustentabilidade na mesa. Isso passa por dar mais uso à nossa biodiversidade para nutrição, fomentar a produção da agricultura familiar próxima às principais cidades e avançarmos na diversificação dos cultivos agrícolas com espécies que remetam à nossa cultura alimentar. Para além de mudar o comportamento dos consumidores, precisamos garantir que mais alimentos frescos e com qualidade cheguem aos principais centros urbanos, principalmente, nos desertos alimentares das grandes cidades do norte e nordeste.
O custo global do desperdício é estimado em US$1 trilhão por ano, e os alimentos descartados respondem por 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa. Caso fosse um país, seria o terceiro maior emissor do planeta. Além disso, ocupam em vão o equivalente a quase 30% das terras agrícolas do mundo, segundo o PNUMA. No Brasil, a contradição é ainda mais profunda. Mesmo sendo um dos maiores produtores de alimentos do planeta, 24,2% dos lares brasileiros − cerca de 66 milhões de pessoas − estão em algum grau de insegurança alimentar, de acordo com o IBGE.
É por isso que o nascimento do programa Brasil Sem Desperdício é tão relevante e possibilita unir esforços com outras iniciativas, como a recente Estratégia Intersetorial para Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos no Brasil, lançada pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Trata-se de um pacto nacional que articula empresas, governos e organizações da sociedade civil para reduzir perdas e desperdício ao longo de toda a cadeia produtiva. Coordenado pelo WWF-Brasil e integrante da rede global da WRAP, o programa traz ao país a metodologia internacional “Definir, Medir e Agir”, já aplicada com fortes resultados em países como Reino Unido, Austrália e México. As empresas signatárias recebem apoio técnico e científico para estabelecer metas, implementar soluções e mensurar resultados, construindo um ciclo de melhoria contínua que beneficia a eficiência operacional, reduz custos e prepara o setor produtivo para novas regulamentações.
O debate sobre sistemas alimentares sustentáveis deixou de ser periférico. Em fóruns globais diversos, a pauta alimentar aparece como eixo central na construção de cidades mais resilientes, especialmente diante da crise climática. O recente Fórum Global do Pacto de Milão, com expressiva participação de cidades brasileiras, apresentou avanços em programas de valorização da agricultura urbana, esforços para conectar bancos de alimentos com cozinhas solidárias, e inovações sociais diversas que aprimoram a economia circular dos alimentos.
Para que as cidades brasileiras avancem, é essencial que o tema ganhe visibilidade institucional. Muitas prefeituras ainda não possuem equipes técnicas dedicadas à agenda alimentar, o que impede a consolidação de políticas de longo prazo. Outro ponto fundamental é tomar decisões baseadas em dados: mapear geradores de resíduos, monitorar o desperdício em escolas, entender os ambientes alimentares urbanos e integrar segurança alimentar e nutricional, resiliência climática, e economia circular em uma mesma estratégia.
Há ainda enorme potencial para conectar produção sustentável, empreendedorismo, educação alimentar e inovação social. Hortas urbanas, varejo social, cozinhas comunitárias e programas de colheita urbana já produzem resultados relevantes e merecem ser ampliados.
A relação entre alimentação e clima é direta. Reduzir desperdício é uma das formas mais eficazes − e de menor custo − de reduzir emissões, além de gerar benefícios imediatos para a saúde, a economia e a redução das desigualdades. O Brasil tem condições únicas para liderar esta agenda: capacidade científica, diversidade territorial, produção robusta e uma rede crescente de iniciativas locais que já demonstram resultados.
Estamos diante de uma janela histórica. O Brasil Sem Desperdício pode se tornar um marco para o país − não apenas pela articulação inédita entre setores, mas por consolidar uma agenda que atende simultaneamente ao clima, à economia, à saúde e à justiça social. Transformar sistemas alimentares não é utopia; é necessidade. E é possível. Mas exige vontade política, ambição empresarial e participação cidadã.
O desperdício de alimentos é um símbolo claro do desequilíbrio de um sistema que já não responde às urgências do nosso tempo. Reequilibrá-lo é responsabilidade de todos − e uma oportunidade para que o Brasil lidere, com coragem, inovação e consistência, uma das agendas mais estratégicas da próxima década.
Gustavo Porpino é Conselheiro do programa Brasil Sem Desperdício e pesquisador da Embrapa Alimentos e Territórios (Maceió - AL).




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