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ARTIGO — Pactos Alimentares mostram força no combate à perda e ao desperdício de alimentos

  • mariana3277
  • 13 de jan.
  • 4 min de leitura

Por Daniela Teston e Michael Jones 


A perda e desperdício de alimentos é um desafio global para governos, empresas e pessoas. No Brasil, segundo dados do IBGE e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), estima-se que 55 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçados todos os anos, o que representa 30% da produção nacional − o suficiente para abastecer 275 milhões de geladeiras de alimentos. Isso resulta em uma perda financeira de R $ 61,3 bilhões. 

 

Os alimentos descartados liberam gases de efeito estufa quando se decompõem em aterros e são um desperdício de recursos valiosos, tornando-os um problema ambiental e financeiro. Pactos Alimentares foram estabelecidos em todo o mundo para abordar a questão da perda e desperdício de alimentos. Estes tornaram-se o veículo que pode conduzir e moldar mudanças em larga escala, equipando os países com as habilidades e conhecimentos para reduzir a perda e o desperdício de alimentos através dos princípios de "Definir, Medir, Agir", do campo à mesa. 

 

No Reino Unido, o Pacto de Alimentos e Bebidas mobilizou campanhas de conscientização, como a “Love Food Hate Waste (Ame a Comida, Odeie o Desperdício)”, inspirando milhões de cidadãos a adotar práticas contra o desperdício. O Pacto de Alimentos e Bebidas do Reino Unido também fortaleceu a redistribuição de alimentos excedentes: entre 2022 e 2023, foram doadas 191 mil toneladas de alimentos, o equivalente a quase 60 milhões de refeições. E entre 2007 e 2021, o desperdício de alimentos caiu 18,3% por pessoa no Reino Unido. 

 

Nos Estados Unidos, grandes redes varejistas passaram a usar inteligência artificial para melhorar o controle de pedidos e estoques, reduzindo em média 14,8% o desperdício por loja e evitando a emissão de 26 mil toneladas de CO₂ em aterros. 

 

Estudos específicos mostram que, para produtos perecíveis como morangos, parte das perdas ocorre ainda nas fazendas. Essa perda pode ser reduzida com melhor logística e colaboração com as empresas de varejo. Ações coordenadas em toda a cadeia de suprimentos têm impacto mais eficaz - quando diferentes atores adotam mudanças na forma de produzir, processar, armazenar e distribuir produtos. 


A importância das soluções intersetoriais para ampliar o impacto 


A cadeia de valor de uma empresa raramente é linear: ela forma uma rede que conecta múltiplas organizações. Por isso, a colaboração intersetorial é vital para gerar impacto nos resultados econômicos, ao mesmo tempo em que reduz a pegada hídrica e as emissões de gases de efeito estufa do setor de alimentos. 

 

Quando a cadeia de abastecimento alimentar trabalha em conjunto, é possível reduzir desperdícios, aumentar a redistribuição de alimentos excedentes e poupar dinheiro. 

 

No plano internacional, a Rede do Pacto Alimentar, coordenada pela ONG global de ação ambiental WRAP, conecta iniciativas locais, compartilha melhores práticas e metodologias e ajuda governos, financiadores e empresas a investir em soluções coletivas. 

 

O papel do Brasil  


O Brasil é o mais recente país a lançar um Pacto Alimentar que terá papel central nessa mobilização, tornando-se o segundo Pacto Alimentar da América Latina ao lado do México. 

 

Além de ser um grande produtor agrícola e trazer a perspectiva do Sul Global, o país sediará em 2026 o Pact Connect, encontro internacional que reunirá Pactos de Alimentos e Plásticos de diferentes regiões. Eles têm uma única ambição - consertar nosso sistema alimentar quebrado para o clima, a natureza e as pessoas. 

 

Nesse contexto, surge o Brasil Sem Desperdício, um pacto nacional liderado pelo WWF-Brasil que pretende oferecer um ambiente colaborativo para governos, empresas e sociedade, alinhado ao ODS (Objetivo de Desenvolvimento Sustentável) 12.3 da ONU, que prevê reduzir pela metade o desperdício de alimentos até 2030. 

O acesso ao conhecimento será fundamental para este Pacto. O Brasil se beneficiará da metodologia testada e comprovada que já está implementada há décadas em outros países, adaptando-a quando necessário para se adequar ao contexto local. 

 

O pacto brasileiro abordará a perda e o desperdício de alimentos específicos do contexto local: 

 

  • Identificar e enfrentar pontos críticos de perdas ao longo da cadeia de suprimento alimentar. 

  • Adotar métricas padronizadas e internacionalmente reconhecidas. 

  • Oferecer assistência técnica para empresas e organizações. 

  • Incentivar projetos de intervenção em cadeias produtivas e categorias específicas.  

  • Estimular doações e campanhas nacionais de mudança de comportamento do consumidor. 

  • Objetivo de reduzir significativamente a perda e o desperdício de alimentos até 2030. 

 

A perda e desperdício de alimentos é complexa; nenhuma instituição, isoladamente, pode enfrentar um problema tão amplo e complexo. Governos podem criar políticas públicas, empresas podem inovar em processos e logística e consumidores podem mudar seu comportamento. Mas é o trabalho conjunto, com metas comuns e responsabilidade compartilhada, que alcança o maior impacto. 

 

O Brasil está diante de uma oportunidade histórica ao lançar o segundo Pacto pela Alimentação na América Latina. Ao aderir a esse movimento global e estruturar seu pacto nacional, o país poderá transformar práticas, fortalecer a solidariedade e tornar o sistema alimentar mais eficiente e sustentável. Reduzir o desperdício significa economizar recursos, reduzir emissões, combater a fome e, acima de tudo, valorizar todos os alimentos, do campo à mesa. 

 

Daniela Teston é Diretora de Relações Corporativas do WWF-Brasil e Michael Jones é Gerente de Parcerias Internacionais da WRAP. 

 
 
 

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