#FazAXepa: Campanha nacional é lançada em evento que prega união contra o desperdício de alimentos
Encontro reúne MDS, PNUMA, Embrapa e líderes do setor supermercadista para debater doação, tecnologia e consumo consciente da horta ao prato.
A união entre o poder público, empresas, sociedade civil e até mesmo a ciência é o caminho para conectar a tecnologia do campo, a eficiência nas lojas e a conscientização do consumidor para a redução do desperdício de alimentos no Brasil. Essa foi uma das principais conclusões do evento "Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício de Alimentos: Inovações Tecnológicas e Sociais para Transformação dos Sistemas Alimentares", que aconteceu na manhã desta terça-feira (29/09) na sede da Associação Paulista de Supermercados (Apas).

O encontro, que mostrou como a integração de toda a cadeia transforma o que seria desperdício em comida no prato, ganho financeiro para os negócios e proteção para o meio ambiente, também foi marcado pelo lançamento da campanha #FazAXepa, do Brasil Sem Desperdício. Inspirada na tradição das feiras livres, a iniciativa transforma a xepa em uma metáfora para repensar o valor que atribuímos aos alimentos ao longo de toda a cadeia. A campanha convida consumidores e empresas a enxergarem potencial onde muitas vezes se vê descarte, promovendo uma cultura de aproveitamento e consumo consciente.
"A inspiração vem de algo muito brasileiro e muito conhecido: a xepa da feira. A gente quis ressignificar o que é a xepa. Quando a feira está chegando ao fim, os alimentos que continuam próprios para consumo podem ganhar uma nova oportunidade por meio de descontos, reaproveitamento, doações ou simplesmente porque alguém reconheceu o valor daquele alimento. A 'Faz a Xepa' convida a levar essa lógica para outros espaços", afirmou Luiza Soares, líder da Coalizão Brasil Sem Desperdício pelo WWF-Brasil, no lançamento da campanha.
A iniciativa incentiva escolhas simples no cotidiano, como comprar frutas levemente imperfeitas, preparar receitas utilizando talos e cascas de verduras e legumes ou aproveitar itens com desconto por estarem perto da data de vencimento, evitando que água, solo e trabalho sejam descartados no lixo. Mas, além disso, a necessidade de união entre empresas, sociedade civil e poder público, ponto central do #FazAXepa, também foi ressaltado na fala de Luiza e corroborado pelos parceiros da coalizão, que também estiveram presentes na Apas.

Essa urgência de transformação também foi reforçada pelos órgãos públicos e parceiros internacionais. Patrícia Gentil, diretora do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), destacou a recriação da Estratégia Nacional e o programa Alimenta Cidades, pontuando que "as perdas e desperdícios de alimentos representam um desafio que vai muito além da eficiência econômica. São uma questão de segurança alimentar e nutricional, de garantia do direito humano à alimentação adequada e de sustentabilidade ambiental". Na sequência, Beatriz Carneiro, representante do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), alertou para o fato de que as famílias brasileiras desperdiçam em média 77 quilos de comida por pessoa a cada ano. "Reduzir o desperdício de alimentos é uma medida imediata para limitar o aquecimento global. Cada tonelada de alimentos que deixa de ir para os lixões evita emissões de gás metano e economiza recursos financeiros das famílias e cidades", ressaltou Beatriz.
Avançando para os debates técnicos, o primeiro painel abordou como a pesquisa científica e as inovações no setor pós-colheita conseguem estender a durabilidade de frutas, legumes e verduras (FLV). Susy Yoshimura, diretora do Grupo Carrefour, apresentou a Jornada da Autonomia, que busca incentivar bons hábitos em mais de mil fornecedores agrícolas. "Se a gente começa a nivelar todo mundo por uma nota mínima, a verdade é que a gente não estimula um processo de fato positivo. A jornada surge para estimular esse ganha-ganha: ganha a sociedade, ganha o meio ambiente, ganha o processo produtivo, ganha o produtor e ganha o consumidor final", explicou Susy, lembrando ainda o papel da linha Únicos, que oferece hortifrútis fora do padrão estético tradicional com 20% de desconto. Complementando a visão da ciência, os pesquisadores Marcos David Ferreira e Gustavo Porpino, da Embrapa, apresentaram tecnologias como a nanoemulsão de cera de carnaúba e embalagens de papelão com extrato de orégano. "Quando a gente joga fora frutas e verduras na nossa casa, a gente está jogando muita tecnologia fora. Para chegar até essa qualidade, existe um trabalho imenso de pesquisa e melhoramento genético", afirmou Marcos David.

O segundo painel concentrou-se na articulação entre o varejo e os Bancos de Alimentos para direcionar excedentes a famílias vulneráveis. Na moderação, Alcione Silva, fundadora da Connecting Food, afirmou que "as soluções para a redução do desperdício de alimentos já existem no Brasil. O alimento jamais deveria ser tratado como quebra ou resíduo, e o nosso papel é conectar quem produz a essas soluções".
Denise Meira destacou a atuação do SESC Mesa Brasil, que beneficia 13 milhões de pessoas por mês com o apoio de nutricionistas, frisando que "quando o varejo procura os bancos de alimentos, ele busca transparência nas operações, estrutura, rastreio das doações e o retorno sobre os impactos gerados". Manuel Carlos Lopes, da ONG Banco de Alimentos, lembrou que "falar sobre fome dói, e a doação gera um impacto imensurável na vida de quem recebe". Encerrando a mesa, Rafaela Vieira, do Pacto Contra a Fome, apresentou o projeto CEASA Desperdício Zero, ressaltando que "problemas complexos como o desperdício demandam que a gente mobilize diferentes atores e competências que olham para partes complementares da mesma questão".

Por fim, o terceiro painel explorou o uso da Inteligência Artificial para otimizar o setor de FLV e acelerar doações no chão de loja. Lucio Vicente, do Instituto Akatu, abriu as discussões lembrando que "o desperdício de alimentos é visto como algo importante no campo emocional, mas precisa ganhar racionalidade prática na gestão das lojas e no comportamento do consumidor". No painel, a Inteligência Artificial mostrou-se um acelerador fundamental para a gestão do varejo, provando que, ao diminuir o desperdício, o setor reduz custos, vende melhor e beneficia o consumidor final. No segmento de hortifrúti, a urgência no manejo dos produtos exige agilidade em tempo real, pois análises tradicionais e demoradas não impedem que a comida vá para o lixo.

O evento desta terça-feira evidenciou também que o altruísmo isolado não é suficiente para gerar doações em escala; é necessário entregar resultados práticos para a operação. Quando a tecnologia rentabiliza o processo, a doação do excedente passa a acontecer de forma fluida e automatizada. A união de todas essas frentes demonstrou que o combate ao desperdício no Brasil consolida-se como um compromisso conjunto de eficiência econômica, sustentabilidade e solidariedade.




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