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Dia Mundial da Alimentação: entenda como a redução da perda e do desperdício de alimentos contribui diretamente para a segurança alimentar e nutricional

há 7 dias
4 min de leitura

Em 2026, a ONU convida governos, empresas e sociedade a refletir sobre o papel da inovação na construção de sistemas alimentares mais estáveis, inclusivos e resilientes


Neste 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) propõe o tema “Inovar hoje para nutrir o amanhã”. A provocação nasce de uma realidade concreta: o mundo já produz alimentos suficientes para todos, mas entre 608 e 696 milhões de pessoas passaram fome em 2025, e cerca de 2,69 bilhões não conseguem pagar por uma alimentação saudável, segundo a própria FAO (2026).


Parte dessa contradição se explica pelo que acontece com o alimento ao longo da cadeia. Estima-se que 13% da comida produzida se perca entre a pós-colheita e o varejo (FAO, 2019). Outros 19%, o equivalente a 1,05 bilhão de toneladas, são desperdiçados no varejo, nos serviços de alimentação e nos domicílios, que concentram 60% desse volume, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA, 2024). Toda essa comida que nunca chega a ser consumida ocupa 28% da área agrícola do planeta.


Segurança alimentar, clima e economia


Nesse cenário, a proposta da ONU é debater inovações capazes de transformar essa realidade, com novas formas de produzir, armazenar, transportar e comercializar alimentos. Segundo a organização, sistemas mais eficientes dependem de aliar ciência e tecnologia à experiência de agricultores, pescadores e povos indígenas, e também de investidores, formuladores de políticas públicas e empreendedores.


Todos esses atores podem contribuir para o enfrentamento da perda e do desperdício de alimentos, uma das principais estratégias para fortalecer a segurança alimentar no mundo. Afinal, cada quilo de comida que deixa de ser descartado é um quilo a mais que pode chegar à mesa de quem vive em situação de vulnerabilidade.


Crédito ©️ Tuane Fernandes para WWF-Brasil
Crédito ©️ Tuane Fernandes para WWF-Brasil

Inovação como caminho


O Programa Brasil Sem Desperdício acredita nessa mesma premissa: inovar vai além da tecnologia e também envolve novos modelos de negócio, práticas, parcerias e políticas públicas focadas em garantir segurança alimentar e nutricional para todos.


Lançado em outubro de 2025, o programa é liderado no Brasil pelo WWF-Brasil em parceria com o WRAP (Waste and Resources Action Programme), organização internacional responsável pela iniciativa, e é o primeiro acordo voluntário nacional dedicado ao enfrentamento da perda e do desperdício de alimentos ao longo de toda a cadeia. Esse desafio exige ação conjunta. Por isso, a principal estratégia do programa é articular diferentes setores com um propósito comum.


Hoje, a iniciativa atua em sete frentes interconectadas, que vão da prevenção de perdas ao longo da cadeia agroalimentar à redistribuição e doação de alimentos, passando pela educação do consumidor, pela inovação e tecnologia com escala, pelo engajamento de empresas e pela governança intersetorial. A produção de dados e evidências ocupa lugar central nessa estrutura, pois o volume total de alimentos desperdiçados no Brasil ainda não é conhecido com precisão. O compartilhamento de conhecimento é outro pilar: o programa estimula empresas do setor agroalimentar a compartilhar dados e testar soluções de forma coletiva, em um ambiente pré-competitivo, e organiza grupos de trabalho temáticos.



Nessa coalizão, o setor privado tem um papel fundamental. A partir de sua inserção no Programa, as empresas podem medir e reduzir as perdas em suas operações com a abordagem internacional TMA (Definir, Medir e Agir, na sigla em inglês), que permite às empresas estabelecer objetivos de redução, quantificar onde e quanto alimento se perde e adotar medidas para enfrentar o problema. Além disso, as empresas podem rever padrões estéticos, investir em logística e armazenamento, ampliar a doação de excedentes e apoiar campanhas que mudem hábitos de consumo.


A tecnologia tem ampliado o alcance dessas medidas. Segundo o WRAP (2025), previsões de demanda imprecisas estão entre as causas de excedentes na indústria, e o uso de dados e de inteligência artificial (IA) para aprimorar esses modelos é uma das soluções apontadas. Diversos pactos da rede já testam sistemas de previsão e reposição de estoques baseados em IA para reduzir o desperdício em supermercados. Nos Países Baixos, varejistas e padarias industriais compartilharam dados para melhorar suas previsões, ampliar a vida útil do pão e testar automação com IA na produção, o que reduziu em 40%, em quatro anos, o volume de pães não vendidos devolvidos pelos supermercados. 


Já o setor público tem uma importância decisiva na criação de políticas que estimulem e ajudem empresas e organizações a implementar ações concretas. Entre os exemplos estão a Estratégia Intersetorial para a Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos e o Plano Nacional para Redução e Reciclagem de Resíduos Orgânicos Urbanos (Planaro). No âmbito dessas políticas, há iniciativas específicas que conectam o enfrentamento da perda e do desperdício de alimentos à segurança alimentar.



A Estratégia Alimenta Cidades, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), é uma delas. Seu foco é apoiar os municípios no fortalecimento de políticas públicas de produção, acesso e consumo de alimentos adequados e saudáveis, com prioridade para as periferias urbanas e as populações em situação de vulnerabilidade. A iniciativa conta com o apoio da Embrapa e do Brasil Sem Desperdício, que estão comprometidos a contribuir com pesquisa, capacitação e mentoria para que as cidades participantes possam elaborar planos locais de redução da perda e do desperdício de alimentos e transformar essas ações em políticas permanentes.


Nos municípios, as prefeituras também são convidadas a agir. Elas podem mapear onde a perda e o desperdício de alimentos acontecem e, a partir daí, fortalecer bancos de alimentos, adotar critérios de prevenção nas compras públicas e criar leis que responsabilizem grandes geradores de resíduos orgânicos.


A mensagem da ONU para este Dia Mundial da Alimentação é clara: transformar os sistemas alimentares exige ação coletiva. Reduzir a perda e o desperdício de alimentos é uma das formas mais diretas de inovar hoje para nutrir o amanhã.




 
 
 

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