ARTIGO — Sua comida viaja mais que você?
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Sinal de que o Brasil precisa de estratégias locais para um Sistema Alimentar Sustentável
Gustavo Porpino (*)
A diversidade dos biomas brasileiros representa uma imensa oportunidade para ampliar tanto os cultivos agrícolas quanto para diversificar as dietas da população. A presença de produtos da sociobiodiversidade — aqueles que unem a riqueza dos nossos biomas aos conhecimentos tradicionais de quem os produz — em nossas mesas também significa menos perdas de alimentos, dado o potencial de fortalecermos circuitos curtos de produção e consumo.
Além disso, alinhar o que se cultiva com a cultura alimentar local favorece a geração de renda para agricultores e empreendedores do setor, promovendo impactos econômicos e sociais positivos. Valorizar a brasilidade dos cultivos e a riqueza das tradições alimentares é, portanto, um caminho promissor para um desenvolvimento verdadeiramente sustentável nas dimensões social, econômica, ambiental e até mesmo cultural.
No entanto, essa transformação exige uma revisão crítica do atual sistema agroalimentar, ainda marcado pela predominância de cultivos pouco conectados à sociobiodiversidade nacional. Soma-se a isso a escassez de cinturões verdes em diversos centros urbanos e a limitada oferta de incentivos para que agricultores produzam alimentos representativos da diversidade brasileira e consigam acessar mercados de forma competitiva.
Uma riqueza ainda a ser descoberta, degustada e impulsionada
Quando fui morar em Brasília (DF) há pouco mais de 20 anos, não imaginava o quão diverso era o Cerrado. Minha primeira experiência profissional na Embrapa foi na Embrapa Cerrados, em Planaltina (DF), centro de pesquisa que sediou, em abril deste ano, a Feira Brasil na Mesa, focada em ampliar a produção e o consumo de alimentos da nossa biodiversidade. Araticum, bacuri, baru, buriti, cagaita, cajuí, jatobá, jenipapo, licuri, macaúba, murici e pequi, entre tantas outras espécies endêmicas do Cerrado, ainda são muito pouco conhecidos Brasil afora. Da mesma forma, centenas de espécies da Amazônia e Caatinga ainda são pouco valorizadas como ingredientes das nossas dietas. Precisamos corrigir este erro histórico. As nossas biodiversidade e cultura são os maiores diferenciais para produzirmos alimentos únicos, com vantagens competitivas que não podem ser copiadas por outros países.
Nesse contexto, a valorização dos alimentos locais tem sido reconhecida como uma estratégia eficaz por diferentes governos municipais. Iniciativas como mercados públicos, feiras livres e serviços alimentares, alinhados à cultura alimentar local, desempenham papel fundamental na promoção e visibilidade dos produtos regionais, contribuindo para aproximar produtores e consumidores e fortalecer sistemas alimentares mais sustentáveis e inclusivos.
Aproximando a horta do prato
Ao ampliar a produção local e aproximar quem produz de quem consome, as cidades também contribuem para a redução das perdas de frutas e hortaliças vindas da logística ineficiente usada para distribuir alimentos frescos por longas distâncias. O preço final dos alimentos saudáveis ao consumidor, inclusive das hortaliças orgânicas, tende a ser menor quando a produção é mais próxima, a riqueza é mais distribuída localmente e a população ganha acesso a alimentos mais frescos e nutritivos.
Os desafios de produzir localmente e ampliar o acesso a alimentos da nossa sociobiodiversidade também têm muita relação com o enfrentamento à insegurança alimentar. O recente estudo "Comportamento alimentar: percepções e desafios da alimentação saudável", coordenado pelo Pacto Contra a Fome em parceria com o Instituto Pensi, mostra que a população brasileira almeja adotar uma alimentação saudável, mas a vida atribulada das famílias e o elevado custo da dieta saudável são impeditivos. O preço inacessível das frutas, hortaliças e proteína animal, inclusive pescados em cidades litorâneas como Maceió (AL), é evidente ao observarmos o valor de compras básicas nas principais redes de supermercados ou atacarejos. Os ultraprocessados entram nos carrinhos de compra como as alternativas possíveis para a população de baixa renda.
Ampliar o acesso a alimentos saudáveis passa pelo imperativo de aproximar os produtores dos consumidores dos principais centros urbanos. As cidades podem implementar planos locais de combate ao desperdício de alimentos conectados com o fortalecimento da alimentação saudável. É preciso conhecer melhor quem produz localmente, adotar escuta ativa e buscar soluções conjuntas para viabilizar circuitos de feiras de produtores, fomentar a agroecologia urbana e buscar formas inovadoras para ampliar as conexões entre quem produz e quem consome.
*Pesquisador da Embrapa Alimentos e Territórios (Maceió-AL) e conselheiro do Brasil Sem Desperdício.



